Olímpiadas de Inverno Milano-Cortina

O legado italiano
A Itália sediou a última edição dos Jogos Olímpicos de Inverno, que se encerrou no último domingo (22) em uma cerimônia de arrebatar os corações na Arena de Verona, um dos mais icônicos monumentos do Império Romano. Em uma cerimônia sem grandes efeitos especiais, onde a prevalência da beleza ímpar do local se impôs, a Itália passou o bastão para a França, a sede das próximas olímpiadas de inverno. Mesclando ópera e techno, a milenar Arena de Verona fez jus à sua tradição de receber espetáculos dos mais diversos gêneros sem perder a sua essência, numa verdadeira demonstração de que inclusão não significa substituição, mas sim agregação. De forma magistral, a Itália demonstrou que não é necessário romper com o passado para se preparar para o futuro, porque a tradição pode caminhar junto à vanguarda.
A tocha olímpica se apagou, mas o legado italiano permanecerá vivo em nossas memórias. Já na cerimônia de abertura, a Itália mandou o seu recado: tradição e modernidade podem conviver de forma harmônica. Aliás, como não sorrir com os bonecos de Puccini, Verdi e Rossini fazendo os passinhos da musiqueta das Olímpiadas? A Itália honrou o seu legado na música lírica, com um belíssimo espetáculo de música e dança do corpo de ballet do Teatro alla Scala, coroado com a apresentação memorável de Andrea Bocelli. As artes também tiveram papel de destaque com a encenação de tubos de tintas caindo sobre o palco. Afinal, estamos falando do país onde o Renascimento surgiu, com os grandes nomes da época sendo reverenciados até a atualidade. O legado na literatura também fez parte do espetáculo, assim como a rica gastronomia, que conquistou o mundo e fizeram os atletas lamberem os beiços em meio às competições. E não posso deixar de comentar a bela homenagem a Giorgio Armani, um dos maiores estilistas do mundo falecido em setembro do ano passado. Ouso dizer que a homenagem a Armani não se resumiu ao desfile das modelos vestidas em terninhos bem cortados com as cores da bandeira italiana, ela esteve presente durante toda a cerimônia, através da valorização do bom gosto e da elegância discreta que fizeram parte da trajetória e do legado do estilista e foi o cerne da cerimônia de abertura.
Foram duas semanas intensas, com diversas provas em esportes pouco ou nada conhecidos no Brasil, como o Skeleton onde a brasileira Nicole Silveira conquistou a melhor posição brasileira da história. E o inusitado não deu bobeira e também decidiu participar da festa. E se já parecia surreal ver a bandeira do Brasil ser hasteada no pódio da prova de Slalom Gigante de esqui alpino, uma das provas mais célebres das olímpiadas de inverno, mais surreal ainda foram as câmeras oficiais registrarem a chegada de Nazgul em uma prova do esqui cross-country feminino. Lucas Pinheiro Braathen nos emocionou, claro, mas o adorável lobo checoslovaco que roubou a cena no cross-country também garantiu o seu lugar na história dos jogos olímpicos de inverno. Nazgul também é ouro!
Em meio a tantos momentos emocionantes, seleciono três momentos protagonizados por mulheres admiráveis. Logo nos primeiros dias de competição o grito de dor, física e emocional, da esquiadora estadunidense Lindsey Vonn ecoou do alto da montanha de Cortina d’Ampezzo para arrancar lágrimas dos meus olhos. Uma atleta apaixonada, que mesmo com as inúmeras lesões e cirurgias ao longo da carreira, decidiu se despedir do esporte nas Olímpiadas de Milano-Cortina. A sua queda logo no início da descida chocou o mundo e outras cirurgias foram e serão ainda feitas em sua perna. Infelizmente Lindsey não pôde encerrar a sua carreira no pódio de Milano-Cortina, mas ela é ouro em coragem, perseverança e luta! Lágrimas também escorreram pelo meu rosto ao ver Francesca Lollobrigida correr para comemorar com o seu filho a medalha de ouro na patinação de velocidade de 3 mil metros, conquistada no dia de seu aniversário e com direito a quebra de recorde olímpico. Embora tenha sido criticada por italianas que se intitulam feministas, Lollobrigida deixou a mensagem de que uma mulher pode ser mãe e atleta/profissional de alto nível, que uma mulher não precisa abdicar de uma coisa que lhe é importante para buscar outra. O caminho não é fácil, os sacrifícios são muitos, mas nós, mulheres, podemos fazer tudo o que quisermos! O sorriso de realização de Lollobrigida é uma inspiração para todas as mulheres que travam as suas batalhas diárias, redobrando-se em suas muitas facetas. E, por fim, gostaria de lembrar uma das cenas mais lindas que o esporte em Milano-Cortina produziu. A reverência das esquiadoras Sara Hector (Suécia) e Thea Louise Stjernesund (Noruega) a Federica Brignone ao vencer a medalha de ouro na prova de Slalom Gigante. Assim como Lindsey Vonn, Brignone é uma guerreira. A menos de 1 ano das olímpiadas sofreu um grave acidente enquanto esquiava e existia a dúvida se ela teria condições físicas para competir em Milano-Cortina, mas a sua força e a sua determinação foram tão grandes que ela não apenas competiu, mas venceu duas medalhas de ouro (Slalom Gigante e Super Gigante). Essas três mulheres são realmente gigantes!
Quanto aos homens, gostaria de me restringir a três brasileiros. Muitas e muitas lágrimas de felicidade foram derramadas após a tensão da segunda descida de Lucas Pinheiro Braathen na prova de Slalom Gigante. O meu coração ficou apertado quando ele cometeu um pequeno deslize logo no início da descida, confesso que só pensava “não caia, não caia, não caia”. Lucas não caiu e garantiu um feito inédito, a primeira medalha para o Brasil em uma edição de Jogos Olímpicos de Inverno! Esperamos muito, afinal, não temos nenhuma tradição em esportes de inverno, mas quando veio, chegou chegando. A primeira medalha foi de cara a de ouro e numa das provas mais célebres das olímpiadas. Lucas superou críticas, buscou apoio e chegou lá, no topo do pódio de Milano-Cortina! Outro brasileiro incrível não trouxe nenhuma medalha física, mas é ouro. Edson Bindilatti, atleta do Bobsled, encerrou a sua carreira após participar de seis edições de Jogos Olímpicos de Inverno. Quem diria que um baiano se tornaria atleta de um esporte de inverno e terminaria a sua carreira de atleta no top 20 do esporte? O sorrisão de desbravador estampado no rosto de Edson ao carregar a bandeira do Brasil na cerimônia de encerramento das Olímpiadas Milano-Cortina representa que o impossível se torna possível quando você vai lá e faz. E Edson fez. E fez bonito!
Embora o Lucas e o Edson tenham me emocionado muito, nenhum deles me emocionou tanto quanto um italiano que tem se tornado cada vez mais brasileiro. Alberto Balatroni, meu marido, me emocionou do início ao fim das olímpiadas. O italiano nascido e crescido em meio às montanhas italianas que receberam as centenas de atletas, reviveu a emoção de sua terra em cada prova. Enquanto eu torcia para o Lucas não cair, ele fechava os olhos para suportar a tensão pela descida decisiva do atleta. Com o seu coração dividido entre a Itália e o Brasil, ele me explicou pacientemente as muitas regras dos esportes de inverno, principalmente das competições de esqui, uma sua velha paixão. Eu me emocionei por vê-lo se emocionar durante a cerimônia de abertura e em tantos outros momentos inesquecíveis dessa edição olímpica. Um apaixonado por esportes que viu o melhor resultado da Itália em olímpiadas de inverno ser conquistado em casa. Um apaixonado por esqui que viu o Brasil conquistar a sua primeira medalha em uma competição de esqui na montanha de Stelvio, a mesma montanha em que ele me levou para ver neve pela primeira vez. Eu reverencio Alberto Balatroni, pois para mim ele sempre será o maior campeão!
